Certo dia na Universidade me ensinaram a aplicar instrumentos psicométricos capazes de avaliar candidatos a uma hipotética vaga de emprego. Utilizando a Teoria dos Cinco Fatores da Personalidade, na busca pelo candidato ideal, eliminei todos os participantes que mais pareciam comigo e fui elogiado pelo meu professor.

               Esses são os Cinco Fatores da Personalidade:  Abertura à experiência, Conscienciosidade, Extroversão, Amabilidade e Neuroticismo. As pessoas que pontuam alto em Neuroticismo são mais afetadas por emoções negativas como medo, ansiedade, vergonha, culpa, nojo e tristeza.

               Depressão, transtornos de ansiedade, fobias, transtornos alimentares, transtornos pós-traumático, transtorno obsessivo compulsivo, todos apresentam alta correlação com o Neuroticismo.

               Pesquisadores acreditam que o Neuroticismo foi repassado geneticamente com o intuito de preservar nossa espécie. Uma atenção exacerbada a detalhes ou uma ansiedade generalizada poderiam proteger você e sua família no período Paleolítico, no entanto, esse sistema de resposta ao estresse é projetado para lidar com desafios intensos e de curto prazo, ele é ancestral e mal adaptado para os eventos estressores que enfrentamos hoje.

Mas será realmente possível que mecanismos de defesa essenciais, desenvolvidos durante milhões de anos, possam subitamente tornarem-se supérfluos? Na primavera de 2000 o professor e psicólogo Dr. Sean Egan, na base do Monte Everest, aplicou o Questionário de Personalidade de Eysenck Revisado a 39 escaladores e esses obtiveram um escore significativamente baixo em Neuroticismo e alta pontuação em Extroversão. Não se sabe ao certo quantas pessoas tentaram escalar o Monte, mas aproximadamente 300 pessoas morreram no Everest. O Dr. Sean Egan era professor de Cinética Humana na Universidade de Ottawa e faleceu em 2005, aos 63 anos, no acampamento-base do Everest, durante sua primeira tentativa de escalada.

A coragem de um escalador é digna de admiração, mas o fato é que seu baixo nível de Neuroticismo ofusca seu julgamento de perigos reais. Seria então plausível presumir que nossos antepassados com nível muito abaixo da média em Neuroticismo foram desfavorecidos pela seleção natural por conta da sua alta mortalidade.

Estudos mostram que escritores, poetas e artistas são grupos com alto índice de depressão, o que sugere alto grau de Neuroticismo. O psicólogo James McKenzie estudou o Neuroticismo como preditor de desempenho acadêmico. As emoções negativas que os alunos experimentavam— quando associadas a um alto grau de Conscienciosidade (organização e autodisciplina) — pareciam servir como combustível para melhora no desempenho desde que sua mentalidade transformasse esse combustível em ação. Cabe ressaltar que em alunos desorganizados, o Neuroticismo foi preditor de baixo desempenho acadêmico.

Conclusão

O Neurótico tende então a ser mais reflexivo e analisar o mundo de forma minuciosa, a mal adaptação do Neuroticismo em termos evolutivos pode e deve ser canalizada aos tempos modernos contanto que seja observado o grau de Conscienciosidade do indivíduo. Os Neuróticos não devem buscar “curar-se”, pois existem nichos onde suas particularidades são muito valiosas. Sua obsessão pode te enriquecer, sua ansiedade pode proteger a sua família, sua depressão pode ser uma ferramenta de criação. Todos esses superpoderes vêm com um custo alto, o sofrimento psíquico agudo ou crônico. Com estratégias sólidas que manipulam o ambiente e seus comportamentos, podemos modificar a produção de hormônios e neurotransmissores chaves para melhor adaptação. Através da Psicoeducação você pode adquirir conhecimento e aprender a utilizar essas estratégias para potencializar suas idiossincrasias e acalentar seu sofrimento.

Referências:

“The Depression Cure” (2019) By Dr. Stephen Ilardi

“Personality: What makes you the way you are” (2007) by Daniel Nettle